Teest PT

De profundis, valsa lenta

Salón Bahía, Santander

Rui Soares Costa tem vindo a explorar múltiplos suportes e utensílios na sua prática artística, fortemente influenciada pelo Desenho não só enquanto disciplina, antes, e sobretudo, pelo que de pensamento e reflexão daí resultam. Do ponto de vista formal, é assumida essa pesquisa como uma expansão do território onde o Desenho se insere, interrogando-se sobre as próprias categorizações mais convencionais desta expressão artística. Por outro lado, o Tempo enquanto assunto e matéria tem sido uma das temáticas a que Rui Soares Costa mais tem desenvolvido no seu percurso artístico. Pelas suas mãos, o Tempo, essa entidade abstracta, tem vindo a ser perscrutado e representado em objectos visuais recorrendo a suportes múltiplos e a diferentes ferramentas, sejam eles papel, madeira, fogo, açúcar, verniz, caneta ou buril. Em «De profundis, valsa lenta» concentram-se estes dois eixos formais e programáticos com as suas sucessivas camadas de matéria, fogo, papel e resinas.

Porém «De profundis, valsa lenta» remete-nos ainda para o livro homónimo de José Cardoso Pires [Portugal, 1925-1998] onde este relata o período da sua vida em que perdeu a memória e a sua capacidade de falar ficou bastante debilitada. Estando “analfabeto de mim e da vida” é essa busca de outros signos, de outras formas de comunicar, de sobreviver a uma “morte” que Cardoso Pires aqui tenta testemunhar. É nesse outro-lugar para além da comunicação “stricto senso”, nessa não- consciência que, ainda assim, se tentar dotar de algum Cartesianismo que se cruza o universo literário de José Cardoso Pires e o universo artístico de Rui Soares Costa. — Ana Matos in Folha de Sala